Segunda, 12 Dezembro 2016 00:23

Criança da Guerra

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Não sonho, minhas noites povoadas por pesadelos, minhas brincadeiras são correr sobre destroços, esconder-me entre ruinas, o amanhã o que é o amanhã? Se o hoje custou a passar. Família? Sim, tenho! Mas hoje não sei mais onde estão. Avô, avó, foram os primeiros a partir, tios, tias primos, somente uma recordação distante.

Entre os escombros da minha casa, encontro um álbum de fotografias, nele visualizo o que um dia foi uma vida feliz, não sei o que comemorávamos, mas, em uma imagem perfeita, vejo meu pai sorrindo, minha mãe em seu melhor vestido, minhas irmãs ainda com os belos olhares inocentes, meus avós velhinhos, pensando talvez, em ver os netos crescerem, alguns vizinhos estavam presentes. Em outra fotografia estou sorrindo puxando as tranças de minha irmã mais jovem, ao lado, minha irmã mais velha parece repreender-me.

Em outra fotografia, meus pais ainda jovens, sorriem um para o outro, viro outra pagina, e vejo meu tio, irmão mais velho do papai, juntamente com sua família, participando do nosso jantar de fim de ano, o ultimo em que estão todos reunidos. Uma lagrima escorre do meu rosto, pois sei que muita das pessoas que ali visualizo, nunca mais verei, muitos estão mortos, outros prisioneiros, outros fugiram, e eu? Busco manter a sanidade nesse mundo que não foi o que escolhi para crescer, mas que me foi imposto por homens que tiveram a oportunidade de ser criança, de brincar com um colega que agora chamam de inimigo. Se sonho com melhores dias? Sim! Mas sei que meu sorriso já não será espontâneo, muito menos inocente, minha alma calejada, misturada com a dor da perda, vai cicatrizar, mas, como as colchas de retalhos que minha mãe fazia, será sempre um amontoado de remendos de uma vida que já não existe mais.

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