Segunda, 12 Dezembro 2016 21:31

Bichinho

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-Patricia, e aí, como vai a horta orgânica?

-A horta está ótima...eu é que não sei o que aconteceu com meu pássaro ajudante....estou preocupada com esse sumiço...afinal, ele é o encarregado natural para acabar com as pragas...

-E o galo raivoso?

-O Garnizé está ali perto comendo...só assim se afasta um pouquinho...com ele aqui nenhum bicho ousa se aproximar...mas trato ele com muito carinho...dou bastante milho e ração... Ah, olha quem apareceu...o Lince...ainda bem que voltou..ele também tem um canteiro só dele, com as folhas que gosta de comer...nenhum outro enxerga tão de longe as pragas quando começam a aparecer...num instante ele dá cabo delas...Como você bem sabe, Marluce, não fico tranquila sem os dois.

Patricia é dona também de um restaurante na cidade. Não serve almoço, só começa a funcionar a tardinha, quando ela e uma empregada preparam as comidas para o público da noite...caldos, preparados na hora, pizzas, comidas, belisquetes, tudo muito gostoso, se possível orgânico, num ambiente simples, bem decorado e acolhedor.

É nova. Deve ter 40, 42 anos. Tem uma filha de 22 anos que faz Faculdade em Belo Horizonte. Tem outra de 10 anos, de pai francês, e que já não mora mais no Brasil. Mora em Genebra, para onde Carolina vai todas as férias.

Patricia, ajudada pelo ex marido, comprou uma casa, aumentou, reformou e introduziu novas tecnologias, placas solares, descargas a vácuo e outras modernidades. Mas ela, embora formada em Nutrição, é uma pessoa simples, adora plantar, colher, cozinhar, gosta da natureza. Apesar de muitas dificuldades, a vida foi generosa e ela gosta de seu modo de viver e trabalhar naquele lugar tão tranquilo, tão previsível, cuja rotina é sempre a mesma, onde a diferença acontece apenas pela variedade de turistas que frequenta seu restaurante.

Tem um primo distante que a ajuda em todas as necessidades da casa e da terra. A filha menor também. Ajuda a mãe em todos seus afazeres. E como gosta de tomar banho de chuva..!!! Mas não gosta desse primo da mãe. Não gosta da maneira como ele fica olhando pra seu corpo quando está se banhando na chuva...

No restaurante, já mais tarde, o movimento estava diminuindo e Patrícia conversava com um casal e duas senhoras, chegados do Rio de Janeiro e que queriam saber a origem do nome Bichinho, lugar que foram conhecer. E que, na verdade, não é o nome real, mas sim como passou a ser conhecido.

Patricia estava contando que naquele lugar tem um proprietário de um grande sítio que é, entre outras atividades, criador de porcos. Muitos porcos. Mas não há nem higiene nem limpeza em seus cercados. Nem segurança, porque ele recusa-se a fazer um muro em lugar da cerca velha. E por causa da sujeira, começou a proliferar muitos casos de bicho de pé. E quando alguém quer alguma indicação da localização de alguma casa, ou loja, ou museu naquele lugar, respondem que é no lugar do bichinho. E o nome pegou. O lugar é conhecido como Bichinho. Os vizinhos já foram em comissão tentar convencer o proprietário a melhorar as condições de sua criação, que só faz crescer. Mas é um velho ranzinza e cabeça dura. Diz que não vai fazer nada.

A noite já está avançada quando o grupo se despede. Ainda vão ficar mais um dia em Tiradentes. Quem sabe ainda não se encontram outra vez?

Assim que o dia amanheceu, Patricia acordou Carolina porque o Colégio vai levar seus alunos para passar o dia em Bichinho, tomarem banho de piscina na casa oferecida por um morador, depois conhecerem algumas lojas de artesanatos, almoçarem no restaurante de Sr.Totonho, figura querida do lugar e, por fim, irem ao Museu do Automóvel.

Patricia resolveu fazer várias compras para casa e depois tentar conseguir no Horto algumas mudas das hortaliças que estavam em falta da última vez. Avisou ao primo que não almoçaria em casa e deu algumas instruções para que usasse a pick up e recolhesse o lixo não aproveitável e o levasse para o depósito próprio na cidade.

Em Bichinho, os alunos depois de aproveitarem ao máximo a piscina, saíram em pequenos grupos para visitar as lojas de artesanatos. E, logo depois, foram almoçar. Quando já estavam acabando, Carolina viu o primo de sua mãe chegar na pick up e se dirigir a professora. Em seguida ela informou que sua mãe havia sofrido um pequeno acidente, estava no pronto socorro sendo atendida e havia pedido ao primo para ir buscar a filha e, aproveitando que estaria em Bichinho, passar no sitio dos porcos e comprar um pequeno leitão já limpo e pronto para uso. A contragosto, mas preocupada em encontrar logo a mãe e ver como ela estava, subiu no carro. Quando chegaram no sítio, enquanto o primo foi encomendar o leitão, ela aproveitou para ir ao cercado e ver aquele monte de porcos tão falados e tão temidos. Tomara que não pegasse o tal bicho de pé...

Realmente, eles eram assustadores. Grandes, seus focinhos enormes meio entreabertos como que sempre famintos, a espera de comida.

Nem reparou quando ele chegou por trás, imobilizou seus braços, e começou a tirar sua roupa. Estavam num lugar distante, ninguém poderia vê-los e seus gritos não eram ouvidos, abafados também pelo barulho horrível que os porcos faziam. Começou a chutar, a morder e, quando conseguiu soltar um dos braços, tentou esmurrar seu rosto e afastar suas mãos de seu corpo.

-Me solta! Ficou louco?Onde está minha mãe? Você inventou essa mentira para que eu entrasse em seu carro, não é?

O primo com o olhar alucinado olhando aquele corpo jovem, com os pequenos seios já despontando, sentiu seu desejo crescer insuportavelmente e começou a acariciar todos os lugares daquele corpinho tão desejado e desajeitado, segurando com uma das mãos a menina que não parava de lutar com ele, com a outra estava tentando abrir sua calça.

Carolina gritava histericamente, batendo, arranhando e quanto mais seus corpos se roçavam, mais enlouquecido ele ficava sentindo aquele pequenino corpo de encontro ao seu.

Os porcos parece que adivinhavam o que estava se passando e ouvindo os gritos da menina faziam mais barulho ainda.

No calor da luta tropeçaram e esbarraram violentamente na cerca, que caiu sobre ela. Desmaiou com o choque e com a dor e ele, desequilibrado, caiu no meio dos porcos ensandecidos.

Patricia resolveu que iria encontrar sua filha em Bichinho porque terminara cedo o que fora fazer e queria aproveitar um pouco do passeio do Colégio junto com ela.

Quando soube que o primo havia estado há pouco e a mentira que havia contado para a professora, saiu como uma louca na direção do sítio a tempo de ver o corpo dele ser disputado por várias bocas,seu olhar esgazeado em sua direção como que pedindo socorro e, em seguida ser comido vorazmente, só restando suas roupas. Tudo em fração de segundos. Desesperada, procurando sua filha, a primeira coisa que viu foi o uniforme jogado no chão. Só queria morrer, imaginando que ela também havia caído no meio dos porcos e que havia sido comida do mesmo jeito que o primo. O barulho dos porcos era insuportável, principalmente depois do banquete inesperado. Enlouquecida, começou a andar na direção deles, como que em transe, querendo ter a mesma morte da filha, querendo sentir o horror que ela deveria ter sentido quando caiu, mas parou quando ouviu um gemido bem perto da cerca tombada, perto de onde estava. Olhou e viu um pé sob a cerca. Era de sua filha. Ela não havia caído. Estava viva! Mas o que havia acontecido? Estava muito machucada? Porque estava sem roupa?

O barulho dos porcos chamou a atenção das pessoas da administração que correram para o local, viram a cerca tombada e, enquanto alguns procuraram consertar de algum modo, outros foram socorrer mãe e filha que estavam em estado do choque. Foram levadas para casa, agarradas uma na outra, chorando, soluçando histéricas.

A amiga Marluce foi fazer companhia para ajudar na rotina da casa. Para ocupar o tempo, mas também para curar a mente de todo horror que haviam passado, trabalhavam juntas na horta e no pomar, sempre na companhia de seus auxiliares Garnizé e Lince. O restaurante ficou fechado por um longo tempo. Pelo tempo suficiente para cicatrizar e curar suas feridas da mente e da alma. Mas esse tempo, um dia, chegou. Eram jovens e sentiram o chamado da vida.

Seis meses depois, uma notícia nos principais jornais da cidade e do Estado noticiou a tragédia. Uma criança se desgarrou da mão de seu pai caçador, foi ver os porcos, mas esbarrou na cerca e caiu. Em poucos minutos foi devorada. Quando o pai chegou, viu as roupas ensanguentadas de sua filha e começou a atirar nos porcos que a estavam comendo. Depois que prenderam os que não haviam participado da carnificina, ele abriu a barriga dos que haviam devorado sua filha e juntou todos os pedaços do que havia sobrado dela. Providenciou seu enterro e depois se suicidou.

Foi o fim da criação de porcos naquele sítio. O proprietário foi indiciado, pagou fiança e sumiu no mundo. A última vez que foi visto, estava maltrapilho, sujo, vagando pelas ruas.

Louco.

Procurando seus porcos.

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Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

2 comentários

  • Link do comentário Suzana da Cunha Lima Quarta, 25 Janeiro 2017 18:58 postado por Suzana da Cunha Lima

    Mana, você me havia contado esta história de arrepiar . Desenvolveu bem seu conto, prendendo seu leitor até o fim. Eu só acrescentaria que poderia ser mais curto, Muitos parágrafos poderiam ser suprimidos, para as palavras e emoções se concentrarem mais (grandes essencias em pequenos frascos) no fato em si (o quase estupro) e todo seu talento se revelar no final, no grande finale. É como ir subindo a montanha, de olho no topo, sem se ater muito no caminho e chegando lá, perder o fôlego diante da vista. Bom, se o seu fã MM Schweitzer pode dar a opinião dele, também dou a minha, pois sinto que você pode crescer muito ainda. Bjs, Suzana

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  • Link do comentário M M Schweitzer Terça, 13 Dezembro 2016 14:52 postado por M M Schweitzer

    Outro conto de uma das minhas autoras preferidas nesse site. Esse fala sobre morte e violência contra a mulher. E um conto eletrizante com um final dramático e inusitado. Nao conto para nao estragar o conto.

    Parabéns a autora, pela agradável jornada de emoçoes.

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