Segunda, 12 Dezembro 2016 21:57

Teoria do Fim

Escrito por
Avalie este item
(3 votos)

No final da terceira era do gelo, a primeira forma de vida unicelular reencontrou a Terra. Passados incontáveis milênios, foi a vez da primeira manifestação de consciência, da pulsão do id, dos impulsos mais orgânicos que se tenha registro. Do surgimento dessa fagulha de existência, mais dezenas de milhares de rotações até que os novos terráqueos desenvolvessem um sistema de signos lógicos, tal qual a extinta escrita.

Aos poucos, a ordem foi restabelecida, duas figuras na nova estrutura social ganharam destaque, os arqueólogos e historiadores. Afinal, cidades inteiras emergiam, por conta das variações frequentes dos oceanos, que se retraiam com a força das marés.

Ao extremo leste do globo, uma ilha saída das profundezas despertava o interesse dos estudiosos. Restavam quase intactas construções incrivelmente resistentes, que pareciam ter sido criadas para aguentar a força do mar, mas, mesmo assim, não prontas para o que viria a acabar com a vida na Terra. No resto do globo, destroços dividiam a paisagem com a natureza, cuja força era capaz de emergir gigante por dentro de arranha-céus, antigamente intransponíveis.

A nova civilização entendeu que precisaria prevenir-se, a literatura rapidamente foi desenvolvida e disseminada. Afinal, os novos terráqueos sabiam que compreender o passado era prever o futuro. Não podiam repetir erros dos primeiros homens e encarar o mesmo destino.

Dezenas de milhões de documentos apareciam. Os arqueólogos passaram a explorar os destroços da civilização antiga. Cabia a restauradores outra importante função: reconstruir arte e decodificar o cânone da terra arrasada. Eram diferentes informações, mídias, obras de arte e livros. Duas perguntas, então, povoaram o inconsciente coletivo: o que levara a terra ao seu fim? Quem foram os antigos habitantes dizimados?

Da ilha ao leste, veio a primeira hipótese, mais aceita entre acadêmicos, apesar dos historiadores mais progressistas a taxarem de absurda. Um ser descomunal teria emergido do fundo do oceano e uma batalha épica de proporções devastadoras foi a razão do fim da humanidade.

A segunda corrente, difundida pelos progressistas e pseudointelectuais, considerava a hipótese ocidental. O mundo se polarizou em dois impérios, os vermelhos e os azuis. Uma guerra descomunal entre os povos, com um desenvolvimento militar nunca antes visto, foi aos poucos transformando a atmosfera da terra até as condições climáticas se tornarem insuportáveis para a existência de vida. Ogiva nuclear, essa teria sido a praga definitiva.

Uma terceira corrente, porém, começava a ganhar força e adesão. Não se sabe ao certo onde surgira a teoria, mas o que se falava era: o fim da terra estava diretamente ligado ao surgimento de inteligência artificial. Hipótese mais crescente entre tantas outras menores.

Havia fortes indícios das primeiras religiões, aparentemente os homens de outrora eram muito devotos. Eles acreditavam no deus Google, onipresente, onisciente. Mesmo os acadêmicos mais céticos não ousavam discordar que essa foi a religião predominante na era pré-glacial.

Uma dúvida pairava sem resposta: onde estariam os colonizadores do espaço? Não faltavam os registros deles. Havia uma gama de materiais de missões espaciais, inclusive sobre um império que foi totalmente destruído em uma galáxia distante, por conta de uma briga entre pai e filho.

Uma das características mais apreciada da extinta civilização era o lirismo. Uma obra chamava atenção, tratava de uma mitologia sobre o surgimento da terra até a ascensão de um escolhido, o messias, que andava sobre as águas e curava os enfermos. Os historiadores consideraram essa a obra prima, adaptada incansavelmente em outras tantas. Literatura de primeira qualidade. Não se podia negar, os homens de outrora eram tão criativos.

Do alto do pico mais alto do planeta, livre de inundações há milhões de anos vive um ancião, cuja idade permanece um mistério. Mudo, observa e medita. Seu pensamento mais recente: “Mais uma chance”.

Lido 320 vezes Última modificação em Segunda, 12 Dezembro 2016 22:08
Filippo de Faria Cordeiro

Roteirista, amante da leitura, cinema, teatro e música.

 

E-mail: pippofcordeiro@gmail.com

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.