Terça, 13 Dezembro 2016 21:13

O último dia de Tico Carvalho

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Ângela Maria (doméstica): “Já é pra falar? Ah... é, naquele dia eu cheguei 8h30 na casa do Seu Tico, que é o horário que a gente combinava. Ele dormiu até umas 10h. Eu já tinha colocado a mesa do café. Ele gostava de cafezão, sabe, de novela mesmo. Suco, leite, bolos, pão, até queijo, ele fazia questão de tudo. Mas ele não acordou muito bem, acho que tava de ressaca, preferiu tomar Coca-Cola. Ficou lá quieto, Seu Tico não é de falar durante o café. Cantava baixinho e às vezes fazia algumas anotações. Comeu pouco e, quando levantou, brincou um pouco comigo. Sabe, eu trabalho com ele já tem algum tempo, a gente tinha alguma liberdade. Então, me pareceu que ele estava bem, que era só ressaca, mesmo. Perguntei o que ia querer para o almoço e ele pediu coisa simples, bife com saladas e purê. Seu Tico foi sair já era umas 11 horas. Foi andar na praia. Ele sempre fazia isso.”

Seu Rubinho (dono de quiosque): “O Tico vinha duas vezes por dia no meu quiosque. De manhã, dizia que estava buscando inspiração. Não trazia o violão, geralmente estava de bermuda, camisa meio desabotoada e com os cabelos soltos. Fazia uma caminhada e aqui era o ponto final. Parava, pedia uma caipirinha e ficava olhando para a praia. Mexia com algumas das meninas aqui do Leblon, jogava uma altinha com os moleques, ficava curtindo a manhã. Tinha um caderno que ele sempre trazia e anotava algumas coisas. Naquele dia, ele não estava muito disposto, nem cantar as moças ele cantou. Mas escreveu bastante, devia estar trabalhando com alguma coisa. Era um barato ver ele aqui, posso dizer que pelo menos metade dos discos dele foram compostos ali, ó, naquela mesa.”

Clara Martins (promoter): “Ai, nem gosto de lembrar! É, eu falei com ele naquele dia, mas olha, tô arrepiada de pensar nisso! Liguei para ele e marcamos de nos encontrar naquele quiosque daquele senhor, Rubens. Estávamos trabalhando num projeto, ai, será que eu falo? Ah, agora tanto faz, né? Ia ser um desfile de moda bem carioca, praiana mesmo, sabe? E ele ia fazer a trilha. Ia ficar perfeito, né? As músicas dele, a moda, muito lindo. Encontrei com ele ali, meio dia e meia, mais ou menos. O dia estava ótimo! E o Ti tinha tantas ideias bacanas! Ai, que horrível isso tudo... Chamei ele para almoçar comigo, num hotel ali perto, mas ele disse que ainda precisava pensar em outras músicas. Se despediu com ‘nos vemos em outra oportunidade’. Olha só! Poxa, Ti, vai ser em outro plano, mas vamos nos ver, sim.”

Marina Carvalho (filha do músico): “Sim, almocei com meu pai naquele dia. Cheguei pouco depois de 1h da tarde no apartamento dele e esperei uma meia hora até ele chegar. Foi um almoço tranquilo. Costumávamos marcar almoços juntos, nossa relação era muito boa. Eu estava tentando convencer ele a aumentar minha pensão, pois comecei uma nova graduação. Meu pai era cabeça dura, não aceitava que eu tivesse largado direito para fazer medicina e, agora, medicina para fazer artes cênicas. Uma personalidade difícil a do meu pai, mas linda, também. Era o jeito dele, depois de parecer irredutível, concordava comigo. Foi um bom almoço, rimos um pouco, mas tinha um tom saudosista ali que, na hora, eu não entendi...”

Ângela Maria (empregada doméstica): “Aí, a filha dele veio almoçar aqui. Não gosto dela, menina sonsa, meio esnobe. E discutiram, seu Tico não queria pagar a nova faculdade. A menina é mimada, inventa moda a toda hora, a mãe dá força e quem pagava era o seu Tico, né? No final, eles estavam bem. Era a filha única, Seu Tico tinha muito luxo com ela, apesar de tudo.

Antônio Medeiros (empresário): “Conversei com o Tico por telefone naquela tarde. Estávamos preparando um CD novo e estruturando uma campanha de divulgação. Algo bem moderno, para esse público do twitter, da novidade. Tico Carvalho tem um potencial para público bem amplo e renovado, esse era nosso foco. Não adiantava ficar lançando discos para os ouvintes de sempre. Com tanta coisa ruim, né, por que não ajudar no aumento do nível das canções que essa moçada escuta? Pensei em versões do Tico para músicas jovens, pop, ficaria muito bom. Ele estava reticente, era tradicionalista. Eu tentava convencê-lo. Nossa conversa foi mais isso, essa discussão. Não resolvemos nada, por fim.”

Seu Rubinho (dono de quiosque): “De tarde o Tico voltou, no horário de sempre, 16h30, 17h. Aí, voltava com violão. Ficava naquela mesa, mais isolado, cantando baixinho e fazendo anotações. Acho que ele escrevia pelo menos uma música por dia, às vezes mais, duas, três. A maioria, me falou, eram outros que gravavam, esses cantores que não sabem compor. As que ele gostava, iam para o CD dele. Ficava lá até anoitecer, às vezes ia embora bem tarde. Só que naquele dia...”

Ângela Maria: “Voltava já de noite da praia, tomava banho, comia alguma coisa e ia para o bar. Era a rotina dele. Tinha muitos amigos, sabe? Esses famosos, atores, escritores, outros músicos, gente importante, mesmo. Aí, sempre encontrava os amigos. Nem marcavam nada, era sair pelas ruas e encontrar conhecidos. Todos gostavam dele. Naquela noite, ele não veio. Aí o Rubinho ligou.”

Seu Rubinho: “De repente, ele ficou azul, não conseguia respirar. Todo mundo assustou, a gente deixava o Tico em paz, trabalhando, né? Por isso ninguém viu de cara que ele estava mal, com alguma coisa entalada. Um pessoal que estava numa mesa mais perto diz que foi engasgo de “s”. Ele estava cantando, compondo, tudo baixinho. E o sotaque carioca, sabe, parece que ele carregou demais. Era o estilo dele, cantar com o “s” bem marcado no fim das sílabas, era bonito. Mas foi fatal. Ele amava tanto a vida dele, de zona sul do Rio, que, de certa forma, morreu pela causa. Só pode ser, ele engasgou com os “s”s.

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Luís Fernando Amâncio

Moro em Belo Horizonte, onde fiz graduação e mestrado em História pela UFMG. Sou autor do livre "Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas" (Ed. LiteraCidade). Atuo, atualmente, como colunista no site Digestivo Cultural.

E-mail: luis.amancio@gmail.com

Link: www.twitter.com/fernandoamancio

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