Quarta, 21 Dezembro 2016 10:15

O ovo da vingança

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Joca era um cozinheiro frustrado que sonhava em ser chef. O máximo que conseguia cozinhar com sucesso era um ovo poché. Mesmo esta sua especialidade não era bem uma especialidade. Apenas uma em cada dez tentativas era marcada pelos aplausos dos comensais (na verdade estavam mais para cobaias) do velho Joca. Volta e meia justificava suas incontáveis tentativas repetindo aquele bordão chato que fora muito usado tempos atrás: - sou brasileiro e não desisto nunca. E os gaiatos soltavam, sem a menor piedade, piadinhas a respeito do talento culinário do Joca, entre elas esta frase infame: “Pois é, Joca, tu não desistes nunca e talvez até o diabo vai ter que ouvir esta tua frase, quando “lá” chegares com tua caçarola e teu cepo com as facas gourmet”.

Joca não se fazia de rogado e continuava em busca do seu sonho inquebrantável, lendo, ouvindo, assistindo e participando de todo e qualquer cursinho que versasse sobre comida. Asiática, indiana, tupi, guarani, mexicana, vegana, mediterrânea, dos céus, dos infernos, fosse qual fosse a influência, lá estava o Joca, sentadinho a assistir às técnicas e dicas dos chefs inspiradores daquele insano desejo de vestir um dólmã reluzente e alvo como sua ingênua esperança.

Em um destes tantos encontros culinários com uma das chefs famosas de tantos programas que explodiram na tv aberta, fechada, semi aberta, por assinatura, pré, pós paga, pós praga que se transformou, estava lá o Joca, extasiado, não cabendo em si de tanta satisfação em estar diante daquela deusa das panelas. Agora, com as técnicas ensinadas e dicas transmitidas pela rainha dos gourmands, seria o início de uma carreira bem sucedida para o Joca. Tal um 007, abre sua maleta com avental, facas, instrumentos mil, pimentas de tudo que é tipo, sal rosa, preto, do Himalaia, das catacumbas do Chile e ouve um “BOA TARDE!”. De súbito para de exibir sua parafernália técnico-gastronômica para ouvir um recado duro: - guardem seus instrumentos que isso sozinho não faz um bom cozinheiro. Joca corou suas bochechas redondas e fechou sua maleta de estimação. Xiiii pensou Joca, se ela falou tá falado. Sentou-se quieto e esperou a primeira parte da palestra de sua ídola.

- Atenção, senhoras e senhores, em primeiro lugar digo com toda a convicção: cozinhar é um ato de amor. Amor pela gastronomia, pela comida, por quem vamos servir, amor pela profissão. E também não basta saber técnicas, é preciso colocar a alma na panela. Se tiver talento, então, é meio caminho andado. Se não tiver talento, bem daí... são muitos caminhos a andar arduamente, com muito estudo, muita prática e muito trabalho. Continuou a chef falando: - se você é do tipo que não acerta um ovo, lamento, mas é melhor procurar outra coisa a fazer, porque senão esta frustração será transmitida para a comida e eu não desejo isto a ninguém, que prove a frustração, porque deve ser um gosto intragável.

Nisto, Joca já não parava mais quieto na cadeira, não tinha mais o que suar e aquela, que antes era sua ídola começou a ter verrugas no nariz, um chapéu comprido e uma vassoura estacionada ao lado. Não a imaginou mais pilotando panelas, e sim um caldeirão preto e borbulhante com orelhas de morcego, patas de borboleta e fios de cabelo do Joca. – BRUXA! Gritou Joca, sem pensar e sem pestanejar. Todo mundo olhou para frente e Joca estava lá, imóvel feito uma estátua de sal, sem saber onde enfiar a cara. Sem outra saída, tentou remendar, dizendo que quisera dizer maga das panelas, mas traído pela emoção saiu um “bruxa”. O silêncio e o olhar da chef foram suficientes para fuzilar Joca. Levantou-se, pediu licença e foi ao banheiro para tentar disfarçar o momento desagradável que protagonizara.

Voltou, pegou sua maleta e mudou-se para o final da sala, bem perto da porta para ser o primeiro a sair, ao final da palestra. Afinal, pagou pela presença e iria até o fim. Sua falta de talento não seria impeditiva para tentar aprender alguma coisa. Atento a tudo, assistia às recomendações da chef, contando suas experiências e diferenciais do seu trabalho. Nisso, começou a pensar que não era justo com ele, aquelas palavras desferidas por sua ídola. Ela me paga...

Começou a elaborar um plano diabólico para se vingar daquela bruxa. Ela vai provar do próprio feitiço, vaticinou Joca. Como estava na saída, levantou e esgueirou-se até a cozinha, dando voltas por trás do prédio, com sua maleta fantástica dos cozinheiros fantásticos. No caso do Joca acrescente-se o “Só que Não”! Chegando na cozinha, ouve os auxiliares comentando que deveriam deixar prontos os ingredientes e instrumentos para preparar o ovo poché, primeira demonstração prática da chef. Bingo! Pensou Joca. Vai ser aqui e agora que acabo com a carreira desta medíocre. Foi num canto, abriu a maleta e catou um minúsculo pote com um pozinho escrito em francês, que Joca não entendia e uma etiqueta escrita à mão: “pó de baiacu do Haiti”, coisa que um amigo seu que fora a uma missão militar na ilha caribenha de mesmo nome, lhe dera de presente. Este amigo, ingênuo e desinformado pensou tratar-se de algum tempero nativo do Haiti, mas na verdade é usado em rituais zumbis da ilha. E Joca tinha guardado o potinho para não fazer desfeita ao amigo. Agora, pensou o Joca, vou dar uma utilidade prática para este equívoco.

Joca derruba umas panelas que estavam em um armário, para desviar a atenção dos cozinheiros que vão correndo ver o que aconteceu e nisso, Joca pula na bancada dos alimentos e de supetão despeja aquele pó assassino na água onde seriam cozidos os ovos. Desta forma, segundo o plano de Joca, o veneno passaria para os ovos e como não pode cozinhar demais, o veneno não perderia o efeito. Joca sabia que talvez a chef não comesse, mas o que ele queria é estragar a carreira da mesma e se alguém da plateia provar e morrer é mero efeito colateral de sua missão vingança. Concluída a primeira etapa, retorna sorrateiro ao anfiteatro. Senta-se quieto e fica à espera do gran finale de seu plano.

Nisto, alguém sacode Joca, o acorda e diz: - a chef quer que você vá lá na frente provar o ovo poché que ela preparou. Joca nem pensou e saiu em desabalada carreira em direção à porta de saída e nunca mais se ouviu falar do Joca assistindo a algum evento gastronômico.

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Paulo Ismar Mota Florindo

Formado em Ciências Econômicas, especialização em Marketing e Recursos Humanos, participa eventualmente de concursos de contos ou poesia, já tendo sido publicado em antologias. Escreve por hobby e porque gosta de compartilhar seus textos.

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1 Comentário

  • Link do comentário João Vitor Rosso Quinta, 22 Dezembro 2016 13:23 postado por João Vitor Rosso

    Texto divertido e bem escrito. Me diverti muito imaginando as cenas de um cara que quer ser cozinheiro a qualquer preço. É tanto programa de culinária na tv que leva alguns a sonharem mesmo.

    Relatar

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