Quarta, 21 Dezembro 2016 14:52

Eu odeio o Natal

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DEZEMBRO... Dezembro! Sim, eu odiava essa época do ano. Até tentei gostar, tentei. Listava todos os aspectos que não suportava, eram muitos. A visão que as pessoas tinham dela, é que era muito negativa. Ninguém sabia o porquê de comemorá-la? No fundo, odiava mesmo era o natal.

Minha mãe sempre me dizia:

— Marília! Não vai me ajudar a enfeitar essa árvore de natal não? Olha que o papai Noel não vem hein!

— Eu não vou gastar meu dinheiro e meu tempo à toa.

Essa era minha resposta para tudo. Não ajudava a montar a árvore, o presépio (que eu chamava de presepada), ou qualquer tipo de coisa ligada ao período natalino. Preocupados, os meus pais me levaram a um psicólogo quando eu tinha 12 anos de idade.

— E então Dr. Roberto, é grave?

— Não Sra. Joana, de forma alguma — ele viu o semblante preocupado do meu pai —, não se preocupe Sr. Guilherme, é a puberdade.

— Mas Dr. Roberto, uma criança que odeia o natal é muito triste — como era muito emotiva, minha mãe se debulhou em lágrimas.

A criança cresceu, e em minha adolescência, o caso se agravou. Tinha tomado uma repulsa tão grande ao natal, que de novembro em diante, começava a adoecer. Já não era mais convidada pra nenhuma festa de natal, nem de parentes, nem de amigos. Na verdade, evitavam-me. Meus pais não sabiam mais o que fazer.

Até quando me tornei uma adulta e sai de casa, continuei a odiar a tal comemoração. Meus pais são os que fazem a maior festa de natal no bairro. Meus irmãos mais novos soltavam inúmeros fogos de artifício.

Indagada por uma colega de faculdade, sobre o porquê de eu odiar a data comemorativa, simplesmente respondi:

— É só mais um feriado, que obrigam a gente a comprar coisas.

— Mas, mas e a compaixão, o amor e o carinho?

— Não acredito nessa bondade toda, tudo é uma mentira só. É tudo artificial, tem neve no Brasil? E quem é mulçumano, budista ou ateu, vai comemorar o quê?

— Marília, mas... — ele ainda tentou argumentar.

— Nada de, mas, mas, mas.

Nem quando me casei com João e tive dois filhos, mudei meu pensamento. Meu marido e meus filhos não me suportavam de dezembro em diante. E por incrível que pareça, eu era a responsável pelas compras da decoração natalina. Meus dois filhos eram contra. Mas João teimava em acreditar que se ele me incluísse na festa, na participação ativamente, mudaria de opinião.

Como uma anti-heróina, rumava todos os anos para a Rua 25 de Março. O reduto dos desavisados (só realizam as compras dia 23 à tarde) e querem economizar. Mas tem uma categoria a mais, os que vão apuço.

Fazia todas as compras lá mesmo, entrando e saindo das lojas. Calor, dor nos pés, aquele formigueiro de gente. “Tanto sofrimento pra comemorar uma coisa, uma vez por ano”, assim pensava. Comprei papais Noel, uma árvore, bolas vermelhas, bolas azuis, brancas, meias (para pendurar na lareira que não tínhamos) e tudo o mais.

Só depois eu entrei na loja de um chinês. Procurava um gorro. Mas algo me chamou a atenção, um globo de neve! Queria pegá-lo, sorri. Não deveria... Ou deveria? Peguei-o em minhas mãos e o chacoalhei. E pude sentir o frio, o cheiro da neve (que antes jurava ser inodora, pois era água congelada). Senti-me tão bem. Fechei os olhos, e me vi pela primeira vez a admirar o natal.

Olhei dentro do globo de neve, vi uma garotinha de 12 anos, balançando as mãos, a neve flutuava formando no ar a seguinte frase: FELIZ NATAL MARÍLIA. Emocionei-me bastante, quase chorei. Levei o globo de neve comigo, no caixa, o chinês disse que eu não precisava pagar por ele, era um presente. E quando sair da Rua 25 de Março, já não odiava tanto o natal.

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