Quarta, 28 Dezembro 2016 12:51

Olha o Remedinho...

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Capítulo 1

À confissão...

Não sei como começar

A HISTÓRIA.

Então, vou começar do jeito que eu andei imaginando, lembrando-se do que ficou tão perto, apesar de a vida ter deixado tão longe...

Ah, não interessa, vou iniciar...

Minha infância foi há muito tempo. Mesmo.

- Mesmo?

- A minha infância já tem um tempinho bom!

- Eu vivi uma infância do caralho!

- Que tal esquecer tudo?

Resolveram que precisavam parar de bobeiras e dizer aos leitores o que os leitores esperavam. Há muito tempo!

Capítulo 2

- Corre! Vem olhar o novo jogo eletrônico que coloquei no meu celular.

- Não é celular é telefone móvel.

- Móvel? Não é cama.

- Nem mesa...

- Mané, é a mesma coisa.

- E eu não gosto que corrijam minha forma de falar.

- Opa opa opa! Cheguei!

- Vixe!

- Af! Que duas tontas.

- Bêbadas.

- De porre.

-Embriagadas.

Baladeiras. Sem preconceitos.

- Conseguiu o bofe que queria?

- O crush marcou pontos ou não rolou?

- Paquera.

- O que isso minha gente, paquera? Nem eu paquerei.
KKKKKKKKK namorou, noivou, casou.

-CAPÍTULO 3

Fudeu!

Eu hein? Nem conto mais.

Cheia de surpresas. Ela adormeceu.

- Que ressaca, mana, bebi demais.

- Pega a bíblia. Abre no versículo pra gente lê algo de bom.
Nesse momento há um presente perfeito. Ou seria Pretérito?

Ambas tiveram muitas semelhanças...

Maria, Ana, Iracema!

Ninguém respondia.

Mania de esconderijo. Tiveram a certeza que fugir do passado seria preciso.

Não que fuga seja uma delação. Talvez um prêmio. Um par de sapatos vermelhos? Um anel de pedra azul? Ou mandar tudo pro meio do inferno?

Diga-se de passagem, as opções eram bem difíceis de serem escolhidas.

Sei lá, entende?

O que? Indagou Maria.

- Cadê meus sapatos?

- Quem usou sem avisar? Sem pedir? O combinado não foi uma votação livre? Se todas nós deixássemos o pedido estava feito? Livre?

A conversa rolou por nove horas seguidas de dúvidas, incertezas até que houve um consenso.

CAPÍTULO 4

Surge Geralda.

Geralda! Gritava Iracema para que ela não comesse todo o bolo de chocolates. Porque Geralda era louca por...

- Comidas!

Optamos. Mas a verdade era essa. Crua e nua. Assada ou frita. Não era fácil ganhar de Geralda quando a aposta do jogo era um lanche, um sanduíche duplo, feijoada? Meu Deus! Geralda apostava tudo, ganhava sempre e comia o que viesse.

-Vinha.

-Vinho. Podia.

- O que?

Beber vinho dizem os neurocientistas faz bem ao coração.

Que vinho que nada, água de coco, suco natural. Ah, nada era tão interessante mais do que armar um barraco.

- Barraca? Não. Não sou dessas de um amor e uma cabana. Só faço amor na cama forrada com lençóis de seda pura, baby...
História vai história vem e mais um capítulo saiu fora. Caiu. Você venceu. Pode usar.

CAPÍTULO 5

Os batons, blushs, sabonetes, espalhados pelo quarto bagunçado. Quantas noites meu! Demais!

O sabor de se degustar. O prazer de se ter uma história que vai e vem. Confusamente, confunde a mente?

Não leitor. Amor. Eu que gosto de enlouquecer um pouco.

- No que faz sofrer ou sorrir?

- Quanta pergunta. Ana, sua maquiagem está completamente vencida. Não leu o prazo de validade nas embalagens, sua tonta?

Ana desmonta.

- An? Não pode ser...

- Iracema, Maria, Geralda, vem ver, chega aqui. A imbecil vai ficar feia agora, ao menos sobra algum gato pra nós.

- Não! Eu sou bonita ao natural também. O espelho não mente.
Todas riram. Menos Ana, né? Só em silêncio pra não dar o braço a torcer.

- Lembram quando a gente quebrou o braço?

Eu não gosto de rir da desgraça humana, mas o episódio merece.
Foi assim.

CAPÍTULO 6

Corriam muito chovia um pouco voltavam da escola e notaram que o braço, cada um tinha quebrado um braço.

- Escorreguei na casca de banana.

- Fui tocar violão na rua e inventei de correr. O violão caiu sobre o meu braço.

- Quis ser campeã de hand bol e cai na quadra.

- A escola levou a gente pra excursão na praça e cai porque corri em cima de um banco. Da praça.
Zoeira asneira bobeira.

- É. Quem vai querer saber isso?

- Gente, o povo já sabe muita coisa e sempre vai querer tudo.

- Só pra criticar.

- Pra machucar.

- Pra protestar.

O povo estava certo. Pensava o narrador. Quem não pergunta não tem respostas não tem informação engole o que convém, perde direito, chora, bate palmas, daí a história fica sempre mal contada.

CAPÍTULO 7

- Leram o jornal de hoje?

- O local?

- O regional?

- O nacional?

- O da internet, porra!

- Aqui só entra o ficcional.

- Ficcional? Confessionário?

Calma, ficcional é mais verdadeiro. Pega leve tem mais o que narrar...

- Que narrador louco, cara! Nós não sabemos quem é. Ele confunde tudo. Fala de um jeito diferente, até que eu gosto.

- Eu também.

Eu também! Gritaram as demais personagens.

-Que viagem aquela, lembra meninas?

- A do rio?

- De janeiro?

- De novembro mesmo.

- Rio de Janeiro, burra!

- Nós nunca fomos lá.

-Não?

- Não.

- Não!

- Pode ser. Era muito lindo. Um rio cristalino. Não era perigoso. Com um arvoredo e o canto dos passarinhos era um convite ao amor!

- Eu já transei no rio.

- Conta mais.

- Mentira, eu só fantasiei. E foi excitante.

- Ai, ai, sexo é sempre excitante.

CAPÍTULO 8

Precisavam comprar a maquiagem da Ana, as guloseimas da Geralda, o vinho da Maria e o celular novo para Iracema.

Saíram. Alegres. Cumprimentavam todos que encontravam, sorriam até para os outdoors. Vejam só...

Quatro malucas numa mesma rua fazendo selfies querendo beber a vida.

Quando chegaram ao oitavo andar de um prédio em construção, a imaginação individual manifestou-se.

Maria queria ser Antonieta. Iracema com lábios de carmim queria amar até o fim.

Geralda um pouco do doce de chocolate que ainda restava do pote de sorvete.

Ana sonhava com Amsterdã.

O filme já tinha elenco completo, roteiro, direção. Ainda que tardia...

-Querem saber de uma coisa? Vou me mandar dessa história.

-Não!

- Sim!

- Talvez!

- Sinta-se à vontade!

Se for para o bem do leitor, diga ao povo que escrevo.
E vê se para de vaidade. Chantagista!

- Vêm, meninas, o filme vai continuar.

- Ah, que raiva! Meu sapato descolou. Preciso de um táxi. Rápido!

- Vexame! Tá vendo? Podia muito bem andar de sandálias confortáveis, mas não.

- Para, para, o problema é meu, não me deixe mais irritada, tá?

Desceram do táxi direto para o chuveiro. Pernas pra cima, porque o passeio "Pernas pra que te quero" foi bem cansativo. Divertido também.

Riam tanto, riam de tudo, contavam os detalhes das horas não contadas, dos momentos eloquentes, que partiram direto para o soninho da beleza.

Porque só. No sono da beleza, consistia a não aceitação da mediocridade.

Ana chegou primeiro. Trazia um sorriso manso entrelaçado com muitos adjetivos. Cabelos fininhos. Olhos azuis acinzentados.

Iracema veio para o quarto número dois. Trouxe muita alface. Uma sedução aparente e um corpo de valente.

Geralda era bem tranquila. Quando o estômago pensava em esvaziar-se ela já buscava todas as comidas. Do molho de abóbora ao arroz com costela, pão com mortadela, doce de leite, de mamão e de queijo. Bem açucarados.

Uma pausa e volto logo...

CAPÍTULO 9

- Jacinta, onde está você?

Com a pele alva, os cabelos lisos e o sorriso misterioso, era a imagem real de um livro nunca escrito.

Indescritível!

- E Maria?

Um verdadeiro inferno. Reclamava de tudo! Ficava feliz quando certas crianças chegavam. No entorno, um bolo de mimos, balas de canhão. Digo: Explosão de coração enaltecido de amor.

Queria dançar um bolero, um toque com o amor de rosto bem coladinho ao dela.

- Foi tudo um sonho.

-Sonho porque você deixou levar-se pela bagunça emocional da casa governada por tantos instantes da baixa autoestima.

- Podia ter sido tudo tão diferente, Maria...

Mas agora, não adianta. Cheguei atrasada e o trem já passou. Poderia ter sido a resposta de Maria.

- Só que ela não quis assumir a culpa. Morava na dela e achava que estava perfeitamente enclausurada. Não sabia mais agarrar-se em momentos tão precisos, preciosos, valiosos, criados por ela. Nada de mudanças. Nada de esperanças.

Nada, nada, nada. Não sabia nadar. Ia afogando sem perceber. Pedir ajuda só pra os que dependiam sempre da força dela.

- Maria era a mais nova de todas.

- Maria agia como uma personagem do século dezenove. Sei lá. Pior do que eu.

- Maria não sabia o que perdia.

- Parecia gostar de sofrer.

Capítulo 10

Maria, Maria, Maria, Maria, Maria.

Só dá Maria nessa história?

- E nós?

Não tenho mais forças emocionais pra contar o final da história.

Posso simplesmente terminar recordando:

No quarto com cinco camas, havia bonecas e batons e vestidinhos e retratinhos e docinhos escondidos no colchão.

Como se não bastasse;

Nenhuma tinha mais visitas. As visitas tentaram, tentaram, até não resistirem ao novo espetáculo cheio de luzes apagadas, perguntas sem respostas. Nas últimas visitas:

- Lembra vovó?

- Lembra-se do brinquedo que você deu pra o João nesse natal? Mamãe?

- O pessoal vai reunir amanhã, a gente quer você.

Perguntas infinitas pra que elas voltassem ao mundo que já não as pertencia mais.

As penúltimas respostas foram as mesmas aos visitantes:

- Quem é você?

Alguns meses depois, nenhuma respondia quase nada. O descanso no móvel de ferro, os olhos sem olhares brilhantes, um mundo completamente complicado para quem falava tanto, ria demais, brigava com as palavras, brincava de bonecas feito crianças. A imagem no espelho foi usada pela última vez, seis meses antes da última cena. O espelho não tinha mais vida. Nem do passado elas queriam saber. Aliás, diga-se com coragem, não precisavam olhar a imagem que viveram profundamente.

De repente chega uma moça que há seis meses usava tentando sorrir e com muita paciência, a frase do novo cotidiano:

- Olha o remedinho!

Deu de cara com um aparelho ligado ao tubo das meninas.
Silêncio.

A moça notou que não precisaria mais dizer a frase. Engoliu o choro e com uma voz inconformada disse internamente:

"Olha o remedinho".

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Sandra Modesto

Sandra Modesto é mineira de Ituiutaba-Mg. Tem 55 anos e onze meses.
Sempre gostou de ler e escrever.
Casada, tem um casal de filhos, quatro irmãs, ama pão de queijo.
Autora publicada em 2015 com o livro, "Acenda a LUZ", editora Kazuá- SP. O livro é uma coletânea de contos, crônicas e poemas.
É acadêmica da ALAMI- Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
Adora Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina e Cecília Meireles.
Graduada em Letras.
É bem humorada.
Blogueira e louca.
Atualmente aposentada tem se dedicado a arriscar-se em alguns rabiscos. Escrever!

 

E-mail: modestosandralucia@gmail.com

 

Links: https://www.facebook.com/sandraluciamodesto.modesto
https://artedegustada.blogspot.com.br/

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2 comentários

  • Link do comentário Enio Ferreira Quarta, 28 Dezembro 2016 23:53 postado por Enio Ferreira

    Eu gostei. Um diálogo bem equilibrado e com um final bem pensado. O texto tem começo meio e fim, tudo bem com a sequência.
    Parabéns!

    Abraços,
    Enio Ferreira.

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  • Link do comentário Laercio Humberto Quarta, 28 Dezembro 2016 15:33 postado por Laercio Humberto

    Divino! Como sempre tudo que escreve. Um "remedinho " para nós leitores.

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