Quinta, 16 Junho 2016 01:02

Sinais

Escrito por
Avalie este item
(2 votos)

Agora falta pouco, mas acho importante contar como aconteceu desde o início. No carnaval de 2008 iam fazer quase seis meses que eu não saia com ninguém, acredite essa informação é relevante, Carlos era um dos poucos que sabia, por isso me convidou para passar o feriado na casa dele em Itaipava. Iriam ele, sua mulher Gabi, um casal conhecido, Antonio e Mariana. E a Julia, “combina muito contigo” assegurou a Gabi, “pode ir que é gostosa” me confidenciou Carlos.

Lugar incrível, no vale, um rio corta o terreno e forma uma piscina d’água natural. A casa principal tem vários quartos, sala de jantar, estar e cozinha. Os casais ficaram em suítes, eu e Julia ficamos em quartos menores, separados, afinal era bem possível não nos gostarmos.
Era possível ela não gostar de mim. Após tanto tempo eu iria gostar de qualquer coisa, ainda mais dela, linda e com um corpo. Que corpo! E eu, bem, meu problema não era visual, eu era bonito até, mas a mais de um ano tinha mergulhado no meu trabalho, acabei sendo sugado num mundo de depressão ligado a função. Estava antissocial, irascível e aos poucos perdi qualquer habilidade com o sexo feminino. O carnaval era minha reabilitação. A fuga da minha realidade, não falaríamos de trabalho, fiz um pacto com Carlos.

Nem bem chegamos na casa a chuva começou, e com ela o incomodo da situação, eu não tinha as ferramentas para conquistá-la, estava muito mal, tinha me metido em uma merda. A chuva e a pressão foram só aumentando, de noite o rio transbordou e os jornais anunciaram a situação, foi uma daquelas tempestades que acabam com a serra. De manhã veio a notícia, ninguém podia ir para ou sair de Itaipava.

Estradas fechadas, vítimas. Por sorte, o rio só arrastou um ombrelone e uma mesa que enfeitavam o jardim, estávamos seguros. Decidimos manter nossa programação. À noite, as mulheres prepararam um jantar e os homens as bebidas.

Carlos ficou encarregado do vinho, Antonio trouxe whisky e eu cervejas importadas. A bebedeira poderia ajudar minha situação.

Ledo engano. O álcool fez efeito contrário, me tornei um pária, quando eu tentava ser agradável, escapavam as palavras corretas a serem ditas, cada vez mais minha missão parecia entornar. Carlos e Antonio entraram em um estado etílico agudo, eu também. As mulheres se retiraram. Ficamos conversando, mas a verdade é que eles iriam para cama com suas mulheres, enquanto eu iria desmaiar sozinho, iriam acordar e transar como adolescentes no dia seguinte, enquanto eu fingiria que estava apagado, com medo de encontros na mesa do café.

Foi aí que aconteceu o evento que mudou tudo. Eram pouco mais de 6 horas da manhã, eu ainda estava apagado, meio ébrio. Na porta, Carlos, Gabi, Mariana e Julia, desesperados. “Estamos tentando te acordar há mais de meia hora, precisamos de você. O Antonio morreu”. Mil vezes merda, mesmo com pacto, meu trabalho não me deu descanso. Nesse ponto, todos na casa já sabiam que eu era médico legista, só esperavam eu acordar para analisar o morto.

Morreu dormindo, sortudo. Não havia sinais de asfixia, lesões aparentes. Mas lá estavam sinais que eu não queria encontrar. O arsênio é um elemento mineral facilmente encontrado, afinal ele é comercializado como eficaz pesticida, trata-se de um pó branco extremamente solúvel e que misturado com farinha ou açúcar não pode ser detectado a olho nu, sua manipulação causa descamação na pele, unhas quebradiças e estriadas e queda de cabelo na vítima. Pode ter sido administrado em uma das tantas bebidas dele ou em um dos pratos feitos na cozinha. Havia ali um assassino, e eu teria que ficar mais pelo menos um ou dois dias com ele até reabrirem as estradas. Saí do quarto, todos aguardavam apreensivos, “morte natural, o álcool e a comida de ontem não ajudaram, ele sequer acordou”, esperava que o assassino acreditasse, até porque o arsênio permanece no corpo durante um longo tempo, um exame iria constatar o envenenamento e eu já estaria longe dele ou dela.

Carlos deu a solução, ninguém queria ficar preso naquela casa com o corpo, “levaremos para o pequeno hospital do condomínio”. Fomos todos. O hospital estava um caos, um médico idoso e um residente cuidavam das emergências, fora isso, uma atendente servia também de enfermeira. O médico nos atendeu no meio da recepção, Carlos logo contou que eu era legista.

- Causa da morte?

– Ao que tudo indica natural.

– Então estou dispensando os exames, há uma força tarefa para levar corpos para o Rio, mas não vocês, voltem para a casa, assinem aqui e assim que liberarem a estrada vocês se encarregam do enterro, passarei o endereço da câmara frigorifica para vocês mais tarde por telefone.

De volta, a previsão era de pelo menos mais um dia ilhados, mal nos falamos. À noite, Julia entrou no meu quarto, “não quero dormir sozinha”, abri espaço na cama, “nos trouxeram aqui para nos conhecermos, mas” não deixei ela terminar, beijei, agarrei, nossa libido estava mais alta do que o normal, transamos. Passamos a noite, ela me contou, “ele estava devendo uma fortuna ao Carlos, eles iam conversar sobre a dívida aqui”, não foi só, “a Mariana ainda pegou ele traindo” e “pior que ela desconfiava que era com a Gabi, quando eu soube que ele morreu eu tinha certeza que algum deles tinha sido o assassino, graças a Deus foi morte natural”.

Hoje, 7 anos depois, eu achei uma caixa da Julia, em um quarto da nossa casa, nela tinham várias cartas dela para o Antonio. Eles eram amantes, e a relação não era nada amigável.

Essa semana, republicaram um antigo estudo que fiz sobre arsênio, em uma matéria de jornal, por conta de um crime recente. O assassino, essa hora, sabe que eu identifiquei os sinais. E nós todos estamos indo para Itaipava, de novo, vão Mariana e o namorado, ela arrumou dias depois da morte, Carlos e Gabi, que conseguiram um bom dinheiro do espólio do Antonio, eu e Julia. Se você está lendo essa carta é porque eu estou morto, deixei esse documento lacrado anexado ao meu testamento, comece, por favor, a investigar por essas pistas.

Lido 375 vezes Última modificação em Quarta, 06 Julho 2016 14:05
Filippo de Faria Cordeiro

Roteirista, amante da leitura, cinema, teatro e música.

 

E-mail: pippofcordeiro@gmail.com

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.