Quinta, 02 Junho 2016 11:23

Alhos e Bugalhos

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Pego o fósforo, acendo meu cigarro (parece até verso de Augusto dos Anjos). Não é o primeiro, provavelmente não será o último, até que eu consiga coordenar minhas ideias, nessa tarde indecisa entre calor e frio, com a folha em branco à minha frente, apelo mudo diante de meus olhos, qual virgem expectante na primeira vez. “Anda – parece-me dizer ela – o que espera? Assim não sou nada...torna-me plena!”

Ah, meu caro leitor, devo estar delirando. Freud, certamente, deve explicar, mas eu não sei como me desculpar por esse devaneio absurdo. Faz-me lembrar os tempos de colégio interno, onde as freiras, coitadas, quem sabe em loucos desejos reprimidos, nos atemorizavam com visões de um inferno cheio de diabinhos nos punindo por pecados apenas adivinhados, mas nunca vividos.

Será repressão antiga querendo se soltar? Sim, porque tenho uma amiga, moça virtuosa, que desde a infância foi impedida de falar palavrão, e ela, de tão condicionada, achava feio até falar bunda. Mas, um dia, numa quermesse de igreja, amigos nossos resolveram pregar uma peça. Trocaram o copo, onde ela bebia inocente água, por outro, de vodka. Fumegando pelas narinas, daí a um tempo, soltou suas feras. E o mais civilizado que escutamos foi: Quem foi o filho da puta que fez isso?

E a folha em branco continua à minha frente, a despertar imagens lascivas e despudoradas. O que me traz à lembrança uma noite na Plataforma onde, em companhia de Mr. X, saboreando meu chope dourado e esperando a prata da casa, medalhão à piemontesa, ouvi uma matrona enfezada, mais enfeitada que árvore de Natal, desancar seu companheiro, chamando-o de despudorado, sem vergonha e outros que tais, só porque o pobre coitado, na certa, comia com os olhos os enfeites com que a natureza ornou as belas mulatas do show. Foi muito divertido.

O mesmo não posso dizer daquele domingo quando, num impulso naturalista, resolvemos, no “Luiza Saladas”, desintoxicar nossos pobres corpos maltratados. Mr. X escolheu uma salada russa e eu preferi repetir a de outras vezes, antegozando o sabor agridoce do frango defumado com abacaxi em calda. Foi um desastre. O cozinheiro, provavelmente, estava com alguma dor de cotovelo. Os legumes e verduras as salada russa, certamente não estavam de acordo com a perestroika: minguados, descoloridos, passados, faziam triste figura no prato e meu frango, na certa elevado prematuramente a essa condição, não passava de um pinto.

A lua já ia rompendo seu caminho no céu e, com fome, resolvemos esticar no Pizza Palace. Pelo menos lá, estávamos garantidos. A massa dourada, quentinha, lembrando palheta de pintor, destacava o vermelho dos tomates, o branco da mussarela, o creme dos champignons, o marrom do alho frito e o verde da salsa da pizza Provençal que pedimos. Isso tudo regado a Concha y Toro autêntico, sabíamos, e que descia suave, sem pressa, porque, para nós, a noite estava apenas começando...

Torno a olhar para a folha. Embalada pelas lembranças, o cigarro entre os dedos, deixo cair uma brasa que, ávida, vai rompendo a suave virgindade do papel...

Lido 510 vezes Última modificação em Terça, 07 Junho 2016 13:20
Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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