Quinta, 02 Junho 2016 11:45

Espelho, Espelho meu

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Ele entrou tarde no restaurante. Seus olhos se espreguiçaram pelo local. À minha procura.

Pela manhã, alegre, sua voz ao telefone. “Marina, morena, hoje tem que ser. Vamos jantar no Vinicius. Ás nove, está bem?” Combinamos nos encontrar lá. Acertamos detalhes. Tudo bem. Afinal, o cerco já durava um certo tempo. Não tinha mais sentido fugir. Fugir, de quê? Fugir como, pra quê, para onde?

O velho complexo de sempre. O espelho. Implacável. Espelho, espelho meu, existe no mundo mulher mais...mulher menos...mulher (?) sei lá o quê, do que eu? Reflexo. Vulto moreno, alto, anguloso, olhos pintados, boca vermelha, peruca morena. Máscara. Mentira. Por baixo, eu. Sem retoques. Desconexo.

Tudo começou com uma ligação errada. Rolou papo. Rolou sonho. E todo dia, a mesma hora, a voz dele, ao telefone, O tempo passando, conversa vai, conversa vem, “Vamos nos conhecer” Já haviam se passado dois meses. Combinamos detalhes. Fui, mas me escondi. Não tive coragem. Queria prolongar, por algum tempo ainda, a ilusão, o sonho. Fiquei observando, de longe, seu olhar procurando, no meio da multidão, eu. Eu que não apareci. Mais tarde, telefonou desapontado. “Por que?” – “Porque não deu”. Encontro adiado. Até hoje. Até este momento, em que o vejo entrar, tarde, no restaurante.

No espelho, ao lado, meu reflexo. Peruca morena, os olhos pintados, a boca vermelha. Farsa. Quem sou eu? Ele vai saber, ele vai descobrir, vai definir a indefinição...Quero fugir, mas já não há mais tempo.

Ele se encaminha para cá, olhos indagadores, ansiosos. Para junto à mesa. Baixo os olhos. Ele senta-se. Segura minhas mãos ásperas e trêmulas. “Marina, morena, até que enfim” . Levanto o olhar lentamente. Olhos nos olhos, nos encontramos...e nos perdemos. E me perdi.

Marina, morena, porque você não veio?

Eu vim, mas não sou eu...

Espelho, espelho meu...

Ás 11 horas da noite de ontem, a dona de uma pensão na rua Mem de Sá nº 24, Etelvina da Silva, chamou a polícia. Uma viatura da 5ª Delegacia da Lapa, chegou ao local, uma casa velha de cômodos. No quarto nº 5, com o rosto cortado e desfigurado, jazia morto Antonio Batista, 26 anos, branco, solteiro. O cadáver estava de bruços, em frente a um espelho grande de parede, todo quebrado. Em sua mão ensanguentada, um caco do espelho. As únicas informações que Etelvina soube dar sobre o rapaz foram a de que era um tipo estranho, calado, sem amigos. Saía todas as noites, chegando sempre de madrugada. Dormia o dia inteiro. Nos últimos meses, um fato havia quebrado sua rotina. Um telefonema, pela manhã, sempre à mesma hora. Não deixava ninguém atender . Sabia que era para ele. O detetive da 5ª, Francisco Pereira, fez investigações nos arredores e descobriu o dono da boate “Ilusões”, Manoel dos Santos, que conhecia o defunto Só soube dizer que, naquela noite, por volta das 19 horas, Antonio Batista havia chegado à boate pedindo dispensa de seu trabalho. Tinha um encontro que não podia faltar. Trancara-se no banheiro e de lá saíra todo arrumado.
Antonio Batista trabalhava nos shows do inferninho “Ilusões”. Era um travesti conhecido pelo nome de Marina.

Publicado no Jornal “O DIA” de quarta-feira, dia 04/05/2016

Lido 1180 vezes Última modificação em Terça, 07 Junho 2016 13:17
Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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1 Comentário

  • Link do comentário M M Schweitzer Sexta, 05 Agosto 2016 17:02 postado por M M Schweitzer

    Expetacular, como algo pode ser ao mesmo tempo triste e lindo, como um conto pode ao mesmo tempo falar sobre dor e amor? Amei, esse conto e como a vida, lindo mas triste.

    Fiquei querendo saber mais sobre a Marina, acho q ela poderia ter esperando um pouco mais, a vida surpreende, e nossa estoria pode mudar de drama para romance num piscar de olhos.

    Fenomenal :)

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