Terça, 28 Junho 2016 12:29

Garçom Distraído

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Restaurante cinco estrelas. Ia haver um jantar especial naquela noite a os melhores garçons foram deslocados para servir no salão de eventos. O restaurante ficou desfalcado e foram obrigados a contratar alguém às pressas, porque havia muitas reservas para o jantar.

O cozinheiro indicou um conterrâneo, Francisco, que apareceu lá de bermudão, camiseta e sandálias de dedo, como se fosse trabalhar num boteco. Arranjaram depressa um uniforme para ele, e lhe emprestaram os sapatos do cozinheiro, que ele reclamou muito, pois lhe doíam os pés. Francisco era uma boa pessoa mas não estava familiarizado com o requinte de um restaurante luxuoso. Porém a dificuldade maior foi ele entender os pedidos, pois o menu era escrito em francês. Ele era esperto e sabia escrever o básico, mas anotava os pedidos do jeito que ouvia.

Confit de canard – ele anotava: confio canalha

pato cozido lentamente na própria gordura)

Blanquette de veau - quieto, vô

Carne de vitela, com cenouras e manteiga, berinjela e tomates

(blanquette significa que é um prato branco, porque o molho é branco)

Ratatouille – rata tua

(legumes picados, não podendo faltar berinjela e tomate)

Recusou anotar escargot, dizendo que era muito nojento e não serviam aquilo lá.

A cozinha estava maluca com ele, começaram a atrasar os pratos, até que o maitre resolveu retirar um dos garçons do tal jantar especial para ajudar no restaurante. Colocaram Francisco para lavar pratos, mas ele nunca tinha visto aquelas máquinas gigantes de lavar louça. Acabou quebrando alguns copos e uma meia dúzia de pratos, que precisavam ser limpos antes de colocarem na máquina. A noite corria e não sabiam o que fazer com ele.

Até que ele mesmo informou que era muito bom mexendo com bebidas. Sabia muito bem misturar qualquer coisa em suas batidas e drinques exóticos. Resolveram experimentar. Foi um sucesso. E lá, Francisco nomeava seus drinques como bem entendia: morena gostosa, gravatinha, colarinho verde, decote profundo, e outros nomes que ilustravam bem suas deliciosas invenções etílicas.

E incrível como pareça, o restaurante ficou sendo mais conhecido pelo seu famoso barman do que pela excelência de sua cozinha. Pois, além de expert no assunto, Francisco era um bom contador de histórias e um ouvinte paciente, como deve ser um bom barman.

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Suzana da Cunha Lima

Suzana sempre gostou de ler e escrever, desde menina. Mas foi apenas depois do 63 anos que se dedicou à literatura de maneira mais sistemática, visando a publicar seus escritos. O primeiro romance VIRANDO PÁGINAS, em 2008 e depois seguiram-se dois livros de contos: O AMIGO IMAGINÁRIO E SEMPRE VINTE ANOS. Um livro infantil: FADAS EXISTEM?colaboração com 10 contos em duas antologias: ÂNCORAS E O SEGREDO DE CADA UM. Este ano está preparando um livro policial.
Mora em São Paulo, tem três filhos e sete netos e uma família amorosa e unida, grande parte no Rio de Janeiro. Tem uma vida ativa e interessante, gosta de cinema e teatro e atualmente responde pela direção do Departamento Cultural do Clube Alto dos Pinheiros.

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