Gisela Lopes Peçanha

Gisela Lopes Peçanha

Natural de Niterói, RJ. cantora, compositora, escritora.
graduada em musicoterapia pelo conservatório brasileiro de música do RJ.
recentes primeiros lugares em concursos literários: concurso José Cândido de Carvalho- Niterói, RJ/2015; prêmio Rubem Alves-feira nacional do livro-ribeirão preto, SP/2015; concurso de contos da universidade metodista de Piracicaba, SP/2015; concurso de poesias poesiarte, RJ-2016; concurso de poesias de bauernfest-petrópolis, RJ-2015.

Profissão: Cantora, Escritora

Quarta, 26 Outubro 2016 20:07

A Substância da Vida

Amaldiçoada seja. Ele pensou.

E ela entrou pela sala. Afobada, nervosa, com os saltos das botas negras fazendo barulho no assoalho. Os seios ainda muito duros e róseos, camuflados sob a blusa de renda preta, emprestavam-lhe mais e mais juventude. Raivosa, neurótica, ruim de coração. Mas perfeita. Um sonho de se olhar e de se viciar de todo jeito. Pernas brancas como papel e duras como o gelo.

Sexta, 14 Outubro 2016 03:41

MATER - Os Olhos que Nunca Choravam

Salvador completaria vinte anos no dia de São Cosme e São Damião. Sua mãe, Dona Lucia, tinha nele, a grande bênção de sua vida. Apesar de oriunda de uma dinastia de mulheres parideiras, quadris largos, ela perdera dois bebês: o primeiro, falecido poucas semanas depois de nascer; o outro, com seis meses de vida. Sofrera o pão que o diabo amassou, a maior dor que pode existir, mas a chegada deste filho ungido, evitou que ela desistisse de viver. Engolia diariamente o pranto, pois nunca chorou na frente do menino, nem de ninguém. A ele, sempre quis demonstrar toda coragem, vestindo-se de mulher guerreira, mas era tão somente uma adolescente quando se casou e começou a iniciar sua família, junto a Damião - seu marido. Um homem trabalhador que conseguiu erguer casa boa, com a labuta nas plantações de algodão. E Lucia se dedicava integralmente ao filho, o acompanhando nas catequeses e lhe prestando total companheirismo. Salvador, menino dócil, temperamento suave, gostava de ajudar as pessoas. Fora batizado, crismado, fizera primeira comunhão, fora coroinha. E Lucia, regozijando-se por ser a detentora da graça de ter gerado um quase anjo, o salvador de sua existência. Todos os dias orava na capelinha do sítio, a agradecer por este filho, e acendia uma velinha para os outros- desencarnados. Mas seus olhos - na rudeza de alegrias parcas, pelas perdas doloridas e árduas - nunca choravam.