Heitor Chaves

Heitor Chaves

O horror e o mistério sempre carregaram suas sombras sobre meus gostos. Ainda que siga a velha máxima de que um bom escritor deva ler de tudo, das bulas de remédios a postulados científicos, quando me sobra uma escolha, são estas sombras que ditam o caminho.

Idade: 39

Tem algumas coisas que ela jamais se acostumará nesta vida. Uma delas é o cheiro de urina que, entre tantos outros odores terríveis, para ela, é o que destaca, o que lhe impregna. Mas foi assim que aprendeu a viver por agora, para continuar a existir. Ela ignora. Ignora o arrastar claustrofóbico no cano pouco maior que seu próprio diâmetro. Ignora o rumo escuro que nunca tem fim. Ignora os animais vivos e mortos que se espremem entre ela e a imundice. Ignora a podridão por todo os espaços entre o concreto e ela. Ignora todas as coisas, menos uma única. A fome. A fome que a consome e a faz torcer para que os outros tenham tido mais sorte que ela. E isso significa ainda ter forças para lutar por um naco de comida. Subjugar e mostrar sua força sobre algum dos outros. Arrancar um pedaço de seja lá o que de seja lá qual deles. Matar sua fome. Comer. COMER! Um calafrio de adrenalina atiça sua nuca e seus pelos, como se fosse um verdadeiro animal, só de pensar e antever a disputa. E o arrastar continua, agora mais frenético. Passa o pensamento na sua cabeça de que não só a caça de um dos outros foi frutífera, mas que já houve um banquete. Que a festa já teve seu começo, meio e fim. Que ela não esteve no seleto grupo dos sem fome. Seu arrastar pelo cano continua, com intensidade de uma vida por um fio. A imundice acaba por escorrer pela sua boca e traz um gosto azedo, acre que lhe provoca ânsia. Mas é só isso que a revolução em seu estômago trás. Não há nada lá a quase dois dias. Nada que possa ser jogado para fora junto a podridão. Então, mais uma vez, ela ignora e continua. Ignora tudo. Só não ignora a fome.