Deserto sem céu - Conto letárgico dos sentimentos
Deserto sem céu - Conto letárgico dos sentimentos
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Uma borboleta repousava em minha pele marcada. Já fazia algum tempo, mas sequer percebi, e quando me dei conta fui abruptamente surpreendido com uma sensação áspera. A letargia incomodava ocasionalmente em situações assim. Segui minha rotina – Todos os dias intensamente iguais – Perdida nos mares, submergida numa constante apneia. Às vezes me perguntava: Como vim parar aqui? Mas, momentaneamente pensava no que li num recorte antigo de uma velha revista: “Minha alma gélida congelaria o inferno”. Refleti, e não encontrei significado, desconheço essas crenças, acredito no que me toca, por mais que eu raramente sinta, no que vejo, mesmo embaçado. Entretanto, tenho esperança, tenho dúvidas. Uma bipolaridade inerte numa mente nada criativa e muito confusa. Em meio ao caos e a fumaça era possível ignorar o cheiro de sangue e morte dando atenção às lindas árvores de cerejeira. Suas flores encobriam os roubos, assassinatos e horrores de uma cidade constantemente em evolução. “Viva a democracia, a Constituição, aos bons princípios. Viva a revolução. Viva a liberdade de expressão.”


O Quadro da Vovó
O Quadro da Vovó
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Em 1996 vovó Damiana faleceu. Eu tinha apenas sete anos, mas aquela cena não sai da minha mente. Havia uma total ansiedade no velório da vovó, todos os parentes da família resolveram aparecer. Na sala; na cozinha; no quarto e até mesmo no banheiro tinham pessoas que pareciam chorosas. Eu tinha a impressão que a vovó não era o centro das atenções. Um sentimento esquisito dominava aquele lugar, murmúrios de que havia uma disputa nos itens de decoração da casa da vó Damiana.


A menina do ponto de ônibus
A menina do ponto de ônibus
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David não sabia o que ele mais gostava na garota sentada no ponto de ônibus. Se lhe perguntassem, ele poderia dizer que eram os cabelos, loiros e cacheados, que reluziam ao sol da manhã como fios de ouro. David podia sentir o perfume da vasta cabeleira da menina, mesmo não se sentando tão perto dela. Ela cheirava a morango.


Revelações
Revelações
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Essa é uma carta encontrada junto ao corpo de um detento que se enforcou em sua cela:

“Eu lhes afirmo: a história que vou lhes contar é real e aconteceu exatamente conforme vou descrever na sequência. Para lhes dar garantia de que o que digo realmente aconteceu vou registrar aqui meu nome – sim, o verdadeiro e não um pseudônimo.


Boa Noite Vizinhança
Boa Noite Vizinhança
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A velha senhora temia por sua vida. Não restava fôlego ou forças para resistir. Estava em sua própria casa... o perigo também.


O Caçador de Histórias
O Caçador de Histórias
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Hoje o dia esteve com as características que necessito para poder ganhar algum dinheiro. Passei o dia a apreciar com alguma angústia o tempo cinzento, um puro sinal que o verão acabara.


Deixe todo o seu amor e seu desejo atrás de você
Deixe todo o seu amor e seu desejo atrás de você
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Tem algumas coisas que ela jamais se acostumará nesta vida. Uma delas é o cheiro de urina que, entre tantos outros odores terríveis, para ela, é o que destaca, o que lhe impregna. Mas foi assim que aprendeu a viver por agora, para continuar a existir. Ela ignora. Ignora o arrastar claustrofóbico no cano pouco maior que seu próprio diâmetro. Ignora o rumo escuro que nunca tem fim. Ignora os animais vivos e mortos que se espremem entre ela e a imundice. Ignora a podridão por todo os espaços entre o concreto e ela. Ignora todas as coisas, menos uma única. A fome. A fome que a consome e a faz torcer para que os outros tenham tido mais sorte que ela. E isso significa ainda ter forças para lutar por um naco de comida. Subjugar e mostrar sua força sobre algum dos outros. Arrancar um pedaço de seja lá o que de seja lá qual deles. Matar sua fome. Comer. COMER! Um calafrio de adrenalina atiça sua nuca e seus pelos, como se fosse um verdadeiro animal, só de pensar e antever a disputa. E o arrastar continua, agora mais frenético. Passa o pensamento na sua cabeça de que não só a caça de um dos outros foi frutífera, mas que já houve um banquete. Que a festa já teve seu começo, meio e fim. Que ela não esteve no seleto grupo dos sem fome. Seu arrastar pelo cano continua, com intensidade de uma vida por um fio. A imundice acaba por escorrer pela sua boca e traz um gosto azedo, acre que lhe provoca ânsia. Mas é só isso que a revolução em seu estômago trás. Não há nada lá a quase dois dias. Nada que possa ser jogado para fora junto a podridão. Então, mais uma vez, ela ignora e continua. Ignora tudo. Só não ignora a fome.


Menino Sem Olhos
Menino Sem Olhos
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O Menino brincava no começo do oitão, entre a garagem e a varanda, onde era iluminado. Jamais ia até o final do corredor e nem precisava. A bola sempre voltava. Ele a atirava com força contra a parede que sabia estar lá, embora não a enxergasse. O brinquedo era engolido pelas trevas e depois retornava, quicando em sua direção. Voltava mesmo quando ele a fazia rolar gentilmente pelo assoalho. Cachorro não era, nem gato, que a Mãe não permitia nem um nem outro. Nem que se fosse à rua, brincar com os garotos sujos de barro, palmas cheias de cola e vidro de empinar pipa; canelas comidas por outras canelas no jogo de pelota improvisada; roupas herdadas e remendadas denunciando brigas e reconciliações cotidianas.


Espelho, Espelho meu
Espelho, Espelho meu
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Ele entrou tarde no restaurante. Seus olhos se espreguiçaram pelo local. À minha procura.


MATER - Os Olhos que Nunca Choravam
MATER - Os Olhos que Nunca Choravam
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Salvador completaria vinte anos no dia de São Cosme e São Damião. Sua mãe, Dona Lucia, tinha nele, a grande bênção de sua vida. Apesar de oriunda de uma dinastia de mulheres parideiras, quadris largos, ela perdera dois bebês: o primeiro, falecido poucas semanas depois de nascer; o outro, com seis meses de vida. Sofrera o pão que o diabo amassou, a maior dor que pode existir, mas a chegada deste filho ungido, evitou que ela desistisse de viver. Engolia diariamente o pranto, pois nunca chorou na frente do menino, nem de ninguém. A ele, sempre quis demonstrar toda coragem, vestindo-se de mulher guerreira, mas era tão somente uma adolescente quando se casou e começou a iniciar sua família, junto a Damião - seu marido. Um homem trabalhador que conseguiu erguer casa boa, com a labuta nas plantações de algodão. E Lucia se dedicava integralmente ao filho, o acompanhando nas catequeses e lhe prestando total companheirismo. Salvador, menino dócil, temperamento suave, gostava de ajudar as pessoas. Fora batizado, crismado, fizera primeira comunhão, fora coroinha. E Lucia, regozijando-se por ser a detentora da graça de ter gerado um quase anjo, o salvador de sua existência. Todos os dias orava na capelinha do sítio, a agradecer por este filho, e acendia uma velinha para os outros- desencarnados. Mas seus olhos - na rudeza de alegrias parcas, pelas perdas doloridas e árduas - nunca choravam.


A Lenda do Chibamba
A Lenda do Chibamba
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No semiárido cerrado da caatinga baiana, onde o sol ardente bate sob as cabeças de gado dos fazendeiros locais e os abutres sobrevoam o céu azul e límpido a beira do rio São Francisco onde existe uma propriedade abandonada e em cima uma construção podre, uma cabana de madeira envolto por uma cerca de madeira seguida por trepadeiras espinhosas de origem venenosa, e uma placa enferrujada para ficarem longe. O vento uivava fazendo levantar a poeira do chão em pequenos rodamoinhos e a cabana ainda permanecia intacta. Reza a lenda que a cabana e um portal para o habitat de uma criatura maligna, porém nunca ninguém chega perto porque a lenda conta que o monstro canta e dança e seu poder faz as pessoas perderem os sentidos e ficarem como semimortos agonizando até ficaram imóveis para poder devorá-las.


Despertar
Despertar
Por

Ela acordou de súbito. Seus olhos perscrutaram a escuridão. Nada se destacava ali, além do som de sua respiração ofegante e o toque surdo de seu coração contra o peito. Ela permanecia imóvel. Uma fina camada de suor lhe subia as costas até a nuca, onde se fundiam com as mechas escuras do cabelo. Ela apurou os ouvidos, mas o local parecia isolado. Suas mãos tatearam o próprio corpo e ela se descobriu vestida, sem amarras, ou correntes.


Pintinhos
Pintinhos
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Lá estava eu, fumando um cigarro embaixo da marquise e pensando como seria minha vida se fosse lésbica, se seria igualmente ninfomaníaca e me submeteria às mais diversas indiadas em busca de outra buceta pra tesourar com a minha. Do céu, deus jogava baldes d’água e brincava de sacudir as árvores e entortar

Travessia entre Vidas
Travessia entre Vidas
Por

A seguir vocês lerão uma carta datada do século passado que por motivos desconhecidos não foi concluída. Ela foi encontrada no quarto de um jovem que passou parte da sua vida atormentado por surtos psíquicos incompreensíveis até sua morte.


Um por todos
Um por todos
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No povoado de Circus, Assobié acabara de desembaraçar o episódio que vinha convulsionando o cotidiano da população local. À época da ocorrência, há séculos, as informações não venciam as distâncias com tanta facilidade. Então, foi só por coincidência que Timo, o mercador vindo da aldeia Solidarius, pôde ouvir tudo sobre o mistério sobrenatural elucidado pelo estrangeiro. Impressionado com as habilidades de Assobié, foi imediatamente procurá-lo para repassar suas próprias notícias.


Parte 3
Parte 3
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Era um dia comum para Pedro, um amigo comenta sobre um lugar misterioso onde ele poderia conhecer.


Saudade
Saudade
Por

Saudade,
Do que se foi,
De quem perdi,
Da vida que não levei,
Dos dias calmos de outono,
Do vento espalhando meus cabelos,
De minha alma jovem,
Da coragem impetuosa,
Do medo insensato,
Da esperança perdida…


Amor em clave de lua
Amor em clave de lua
Por

A minha cabeça, um rockn roll
Teu cérebro um jazz
Sou sem compromisso
Tu um improviso só
Sou só, um solo cifrado
Tu, um sopro no sax
Eu, um sex appeal


Olhos negros com cor
Olhos negros com cor
Por Vejo o desejo nos olhos negros
Brilham a olhar no escuro
Algo por trás a revelar
Não sei
Não sai
Entrelaçados talvez a procurar

Quero um Amor
Quero um Amor
Por

Quero um Amor
Que me faça ver,
o que eu ainda não vi.
Ouvir, o que ainda não ouvi.
Sentir, o que nunca senti