Terror
Sexta, 14 Outubro 2016 03:41

MATER - Os Olhos que Nunca Choravam

Salvador completaria vinte anos no dia de São Cosme e São Damião. Sua mãe, Dona Lucia, tinha nele, a grande bênção de sua vida. Apesar de oriunda de uma dinastia de mulheres parideiras, quadris largos, ela perdera dois bebês: o primeiro, falecido poucas semanas depois de nascer; o outro, com seis meses de vida. Sofrera o pão que o diabo amassou, a maior dor que pode existir, mas a chegada deste filho ungido, evitou que ela desistisse de viver. Engolia diariamente o pranto, pois nunca chorou na frente do menino, nem de ninguém. A ele, sempre quis demonstrar toda coragem, vestindo-se de mulher guerreira, mas era tão somente uma adolescente quando se casou e começou a iniciar sua família, junto a Damião - seu marido. Um homem trabalhador que conseguiu erguer casa boa, com a labuta nas plantações de algodão. E Lucia se dedicava integralmente ao filho, o acompanhando nas catequeses e lhe prestando total companheirismo. Salvador, menino dócil, temperamento suave, gostava de ajudar as pessoas. Fora batizado, crismado, fizera primeira comunhão, fora coroinha. E Lucia, regozijando-se por ser a detentora da graça de ter gerado um quase anjo, o salvador de sua existência. Todos os dias orava na capelinha do sítio, a agradecer por este filho, e acendia uma velinha para os outros- desencarnados. Mas seus olhos - na rudeza de alegrias parcas, pelas perdas doloridas e árduas - nunca choravam.

Oi.

O quê? Surpresa em me ver de pé? É, eu sei, também estou surpreso.

Tem algumas coisas que ela jamais se acostumará nesta vida. Uma delas é o cheiro de urina que, entre tantos outros odores terríveis, para ela, é o que destaca, o que lhe impregna. Mas foi assim que aprendeu a viver por agora, para continuar a existir. Ela ignora. Ignora o arrastar claustrofóbico no cano pouco maior que seu próprio diâmetro. Ignora o rumo escuro que nunca tem fim. Ignora os animais vivos e mortos que se espremem entre ela e a imundice. Ignora a podridão por todo os espaços entre o concreto e ela. Ignora todas as coisas, menos uma única. A fome. A fome que a consome e a faz torcer para que os outros tenham tido mais sorte que ela. E isso significa ainda ter forças para lutar por um naco de comida. Subjugar e mostrar sua força sobre algum dos outros. Arrancar um pedaço de seja lá o que de seja lá qual deles. Matar sua fome. Comer. COMER! Um calafrio de adrenalina atiça sua nuca e seus pelos, como se fosse um verdadeiro animal, só de pensar e antever a disputa. E o arrastar continua, agora mais frenético. Passa o pensamento na sua cabeça de que não só a caça de um dos outros foi frutífera, mas que já houve um banquete. Que a festa já teve seu começo, meio e fim. Que ela não esteve no seleto grupo dos sem fome. Seu arrastar pelo cano continua, com intensidade de uma vida por um fio. A imundice acaba por escorrer pela sua boca e traz um gosto azedo, acre que lhe provoca ânsia. Mas é só isso que a revolução em seu estômago trás. Não há nada lá a quase dois dias. Nada que possa ser jogado para fora junto a podridão. Então, mais uma vez, ela ignora e continua. Ignora tudo. Só não ignora a fome.

Sexta, 14 Outubro 2016 02:26

O Pedido na Madrugada

Descia, na madrugada em lua cheia, os degraus de sua casa. Sentia um arrepio imenso naquele frio calmo em uma rua silenciosa, grilos mudos e nada mais. Estava com sede. Não era acostumado a descer assim, mas a tentação de um copo com água era maior. Bebeu, e uma batida na porta se ouviu:

Sexta, 14 Outubro 2016 02:16

Menino Sem Olhos

O Menino brincava no começo do oitão, entre a garagem e a varanda, onde era iluminado. Jamais ia até o final do corredor e nem precisava. A bola sempre voltava. Ele a atirava com força contra a parede que sabia estar lá, embora não a enxergasse. O brinquedo era engolido pelas trevas e depois retornava, quicando em sua direção. Voltava mesmo quando ele a fazia rolar gentilmente pelo assoalho. Cachorro não era, nem gato, que a Mãe não permitia nem um nem outro. Nem que se fosse à rua, brincar com os garotos sujos de barro, palmas cheias de cola e vidro de empinar pipa; canelas comidas por outras canelas no jogo de pelota improvisada; roupas herdadas e remendadas denunciando brigas e reconciliações cotidianas.

Sexta, 14 Outubro 2016 02:00

A fuga

De repente ela acordou, e sem pensar duas vezes abriu a porta e saiu correndo, cortando a cidade e adentrando-se na mata.

Quinta, 13 Outubro 2016 22:10

O Ovo

O filho acompanhava interessado o pai na lida dos ovos. A fragilidade das cascas o fascinava, gostava de protege-las do atrito ou choque.

Crianças pintam o muro da escola de branco. Dia ensolarado. As crianças estão amuadas, tristes. Algumas choram. E olha que a palmatória foi abolida faz tempo... Será frescura?

Quinta, 13 Outubro 2016 21:24

Separação

Não derramaria uma lágrima sequer pelo fim do casamento! ― jurava a si mesma, enquanto guardava na mala a cabeça decepada do marido.

Quinta, 13 Outubro 2016 14:30

Falta de fé

Aqueles gritos incessantes atravessavam a madrugada, a exaustão já tomava conta de todos; mas Miguel o jovem padre estava determinado em ir até o fim com aquele ritual.

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