Deserto sem céu - Conto letárgico dos sentimentos
Deserto sem céu - Conto letárgico dos sentimentos
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Uma borboleta repousava em minha pele marcada. Já fazia algum tempo, mas sequer percebi, e quando me dei conta fui abruptamente surpreendido com uma sensação áspera. A letargia incomodava ocasionalmente em situações assim. Segui minha rotina – Todos os dias intensamente iguais – Perdida nos mares, submergida numa constante apneia. Às vezes me perguntava: Como vim parar aqui? Mas, momentaneamente pensava no que li num recorte antigo de uma velha revista: “Minha alma gélida congelaria o inferno”. Refleti, e não encontrei significado, desconheço essas crenças, acredito no que me toca, por mais que eu raramente sinta, no que vejo, mesmo embaçado. Entretanto, tenho esperança, tenho dúvidas. Uma bipolaridade inerte numa mente nada criativa e muito confusa. Em meio ao caos e a fumaça era possível ignorar o cheiro de sangue e morte dando atenção às lindas árvores de cerejeira. Suas flores encobriam os roubos, assassinatos e horrores de uma cidade constantemente em evolução. “Viva a democracia, a Constituição, aos bons princípios. Viva a revolução. Viva a liberdade de expressão.”


Menino Sem Olhos
Menino Sem Olhos
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O Menino brincava no começo do oitão, entre a garagem e a varanda, onde era iluminado. Jamais ia até o final do corredor e nem precisava. A bola sempre voltava. Ele a atirava com força contra a parede que sabia estar lá, embora não a enxergasse. O brinquedo era engolido pelas trevas e depois retornava, quicando em sua direção. Voltava mesmo quando ele a fazia rolar gentilmente pelo assoalho. Cachorro não era, nem gato, que a Mãe não permitia nem um nem outro. Nem que se fosse à rua, brincar com os garotos sujos de barro, palmas cheias de cola e vidro de empinar pipa; canelas comidas por outras canelas no jogo de pelota improvisada; roupas herdadas e remendadas denunciando brigas e reconciliações cotidianas.